Os dias de Trump

Spicer saiu porque entrou Scaramucci, que correu com Priebus, que foi substituído por Kelly, que correu com Scaramucci. É esta a história dos últimos dez dias na Casa Branca. Agora com cargos: o porta-voz saiu porque entrou um novo diretor de comunicação, que correu com o chefe de gabinete (equivalente ao chefe da Casa Civil da nossa Presidência), que foi substituído por outro chefe de gabinete (um general!), que correu com o diretor de comunicação… que tinha começado toda esta história.

 

(Foto: Reuters/Jonathan Ernst)

O argumento anda tão retorcido que só é aconselhável a quem tenha alguma memória de Dallas ou de Dinastia, duas soap operas dos anos 1980 e 1990. A base da história pouco mudou desde janeiro – há uma criança mimada e imprevisível aos comandos da maior democracia e do maior arsenal militar do mundo -, mas os últimos dias foram feitos de voltas e reviravoltas. Difícil de acompanhar.

E também há drama humano. Scaramucci, um bem-sucedido gestor de fundos de investimento em Wall Street – espécie de clone de Trump no mundo da finança, com todos os trejeitos do futuro ex-patrão -, vendeu a empresa e deixou em Nova Iorque a mulher grávida de nove meses. Não estava lá para o nascimento da filha e tudo acabou em divórcio. Passou dez dias em Washington, fez algumas conferências animadas e um colorido telefonema a uma jornalista da The New Yorker, onde ameaçou despedir toda a equipa de comunicação e ofendeu boa parte da equipa do Presidente. Acabou despedido.

Folclore à parte, tudo isto se passou à volta da mais pesada das derrotas. Donald Trump não conseguiu os 51 votos em cem senadores para substituir a política de saúde de Obama. Três senadores republicanos votaram ao lado dos democratas. Depois houve dois inacreditáveis discursos. Um frente a uma sala cheia de polícias em que defendeu a violência… policial e outro na reunião anual dos escuteiros, onde optou por fazer um agressivo comício de campanha para uma plateia de crianças. Mas há sinais de resistência do sistema. Inúmeras chefias policiais rejeitaram o apelo à violência e, mais importante, ficou registado o comportamento dos três senadores republicanos. Ainda ontem diversas fontes da administração garantiam que Trump está a preparar-se para uma presidência isolada, baseada em ordens executivas – decretos presidenciais -, abdicando de procurar o apoio do partido republicano no Congresso. Se há caminho que pode levar a um impeachment é este.

por Paulo Tavares

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